“O direito do turista de vir e ver não pode se sobrepor ao direito de ir e vir do morador”

CARTA DOS MORADORES DO COSME VELHO SOBRE REFORMA DA ESTAÇÃO DO TREM DO CORCOVADO

O direito de ir e vir é o principal, mas não o único prejudicado pela reforma da Estação do Corcovado – que deve começar em breve, segundo noticia publicada neste O Globo. E é com apreensão que nós, moradores do Cosme Velho, constatamos que, mais uma vez, a Esfeco – concessionária que administra o Trem do Corcovado – busca estender os seus domínios até a Praça São Judas Tadeu, vizinha à citada estação.

Todos sabem da importância que uma praça tem, mas, no caso do Cosme Velho, essa importância é multiplicada, porque o bairro, diferentemente dos outros, não possui quarteirões. Tal característica torna ainda mais importante a existência da única praça de todo bairro e do único espaço de sociabilização que seus moradores possuem. Além disso, a praça proporciona a única rotatória de trânsito do lugar – o que contribui para desafogar sensivelmente o fluxo de veículos, que ali fazem o retorno para Laranjeiras ou para o Túnel Rebouças.

Mesmo sabendo que, em função do espaço, esta carta não pode ser publicada na íntegra, precisamos deixar claro, para os leitores e autoridades, que esta é a quarta investida que a praça sofre.

Há 14 anos, também através de O Globo, os moradores tomaram conhecimento de um projeto para transformar a praça em um mega estacionamento, e, felizmente, conseguiram – fundamentados em pareceres de arquitetos e urbanistas de renome – demonstrar o absurdo do projeto e evitar a descaracterização do lugar.

Há 6 anos, como sempre sem consultar os moradores, a Esfeco colocou uma antiga locomotiva, com cerca de 30 metros quadrados, no único espaço vago da praça – o restante é ocupado por bancos, mesas, play-ground e pista para skate. Ou seja, numa praça que já não é grande, foi colocado um enorme ítem museológico, ao relento, no espaço que restava para os moradores organizarem outras atividades, como mostras de artesanato local, venda de alimentos orgânicos etc.

Um ano depois, em 2012, a Esfeco anunciou novo projeto que, pura e simplesmente, amputava um trecho de rua e anexava a praça à estação. Tal projeto foi também alvo de protestos de moradores, da Associação Viva Cosme Velho (https://vivacosmevelho.wordpress.com <https://vivacosmevelho.wordpress.com> ) e também do blog Vizinhos da Praça  https://vizinhosdapraca.wordpress.com/ <https://vizinhosdapraca.wordpress.com/> ) . Após ampla mobilização – onde, novamente, arquitetos e urbanistas demonstraram os equívocos da idéia –, os moradores fizeram chegar à Prefeitura um abaixo-assinado com 437 assinaturas, exigindo  ampla discussão pública das propostas urbanistas para o bairro, e também que o projeto para a praça, especificamente, fosse feito através de edital para concurso público.

Agora, num momento em que a cidade nunca esteve tão fragilizada, anuncia-se um projeto que, dessa vez, não acaba com a rua que separa a praça da estação, mas abre um portal no muro e transfere a passagem dos turistas para aquele local – o que vai mudar radicalmente as características do lugar e influir negativamente no trânsito.  Pelo teor expansionista das tentativas acima citadas, fica claro que a derrubada do muro é só o primeiro passo para futuras expansões, onde o turismo será, como sempre, privilegiado e os moradores e frequentadores ficarão em segundo plano – como em segundo plano já se sentem, ao saber que haverá uma intervenção na praça sem que tenha havido o desejado concurso público, sem que tenha havido estudo de impacto ambiental e sem o devido debate com os moradores, o que contraria todos os preceitos de boa vizinhança e insulta a própria democracia participativa.

A nós, moradores, resta praticar nossa cidadania urbana. Não queremos que nossa praça se transforme em porta de entrada para o monumento ao Redentor, e vamos lutar para que o Poder Público reexamine a questão, tendo em vista as verdadeiras necessidades do nosso bairro.

Rio de Janeiro, 29 de abril de 2017

Assinam: Renato da Rocha Silveira, Ricardo Moya, Geraldo Azevedo, Ana Abreu, Sheila Dain, Antonio Guedes, Maria Cândida Villela Cruz, Pedro Nin Ferreira, Ines e Michael Vieira Roeck, Glaucia Metize, Luiz Afonso Filho, Marcelo Vieira Peçanha, Juan Garcia de Blas, Fania Fridman, Carlos Moure, Carlos e Fátima Caíde Brandão, Marisa Dallalana, Flor Maria Opazo Baltra, Branca Medina, Marcia Chuva, André Guedes da Franca, Sylvie Marchal, Maria Beatriz Pontes de Carvalho, Iza Gilz, Thales Gilz, Renato Guimarães, Fernando Figueiredo de Oliveira, Gustavo Figueiredo de Oiveira, Adriana Barreto de Oliveira, Marimilia Bartha de Mattos, Roberto Botelho Lins Junior, Habib Nascif e Ana Mariza Feres Nascif.